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Candomblé


"Os deuses não nos revelaram desde o princípio todas as coisas, mas, com tempo, se buscarmos, poderemos aprender, conhecê-las melhor. A verdade certa, contudo, ninguém jamais a conheceu nem conhecerá: a dos deuses ou a de todas as outras coisas, mesmo se por acaso alguém pronunciasse o nome da verdade última, não poderia reconhecê-la, neste universo de opiniões."

Karl Popper

Como surgiu o Candomblé

Na época da escravidão no Brasil, a instituição de confrarias religiosas, sob a égide da Igreja Católica, separava as etnias africanas. A maioria dos nagôs trazidos para o Brasil pertenciam à nação de Kêto e formavam duas irmandades, uma de mulheres, a de Nossa Senhora da Boa Morte, e a outra de homens, a de Nosso Senhor dos Martírios. Os daometanos ou geais se reuniam sob a devoção do Nosso Senhor Bom Jesus das Necessidades e a Redenção dos Homens Pretos. Várias mulheres originárias de Kêto, antigas escravas, decidiram criar uma roça de candomblé que recebeu o nome de Iyá Omi Ase Airá Intilè, em uma pequena casa situada na Ladeira do Berquo, hoje conhecida como Rua Visconde de Itapirica, bem próximo à Igreja da Barroquinha, na Bahia.

A palavra candomblé, que muitos acreditam ter origem Bantu, serve para designar, de forma geral, as religiões africanas que surgiram na Bahia e Pernambuco, no período colonial.

A expansão pelo país

A sofisticação estética dos ritos do Candomblé é um dos fatores que exercem grande atração nas pessoas. Além disso, o Candomblé dramatiza relações de uma dimensão cósmica, que se passam no tempo mítico, compreensivo da vida como a conhecemos. Esta abertura mítica veio a se combinar com a dinâmica do sincretismo do catolicismo no Brasil, o que fez com que verdades do Candomblé viessem a ser percebidas e apreciadas por uma quantidade cada vez maior de brasileiros, de todas as raças.

O Candomblé, sempre condenado pela Igreja Católica, chegou a ser violentamente perseguido pelo Estado de Getúlio Vargas. Mas os policiais que invadiam os terreiros eram, muitos deles, também frequentadores, o que trazia uma certa conivência. A perseguição diminuiu a partir dos anos 50, e com isso veio a liberdade para a multiplicação das casas de culto e sua frequência.

Sua influência sobre a Umbanda, movimento novo e expansionista, levou os orixás a serem cultuados em círculos mais amplos, inclusive da classe média. Há terreiros no sul do país liderados por descendentes de imigrantes europeus e devotos dos orixás entreos japoneses e judeus no Brasil. Movimentos culturais passaram a enobrecer o Candomblé na literatura, música, cinema ou TV, emprestando-lhe um brilho que é atraente até mesmo para as elites sociais. Hoje, casas de Candomblé e centros de Umbanda proliferam na Argentina por influência brasileira.

Candomblé - organização e rituais

O candomblé envolve uma complexa organização de crenças e rituais. Os cultos, em torno de uma ordem de orixás e divindades intermediárias, realizam-se em terreiros, cada um deles formado por vários cômodos. Num deles realizam-se danças públicas dos fiéis, possuídos por suas divindades. Um outro é o peji, onde orixás estão assentados e em que só entram os iniciados ou pessoas em certas condições de pureza.

As cerimônias abertas ao público têm características de festa, duram a noite inteira, acompanhadas de intrumentos de percussão: adjá, atabaque, ajê, agogô, caxixi, xaque-xaque, tambores de vários tamanhos. De acordo com o orixá homenageado, matam-se animais (cabrito, galinha) e algumas das suas partes são preparadas e oferecidas no assentamento do orixá. Esta oferenda é o padê de Exu, entidade considerada mensageira dos orixás, e que pode impedir influências pertubadoras no desenrolar da cerimônia: músicas invocativas das divindades e depois a dança, com roupas apropriadas. Uma das características fundamentais do candomblé é o longo processo de iniciação. Inclui a lavagem de contas (o colar lavado pelo chefe do terreiro nas cores do orixá do iniciado) e o bori, que significa dar de comer à cabeça, para fortalecer a pessoa e colocá-la em contato mais estreito com o mundo sagrado. Depois de ter a cabeça lavada com sangue de animal de duas patas, essa pessoa, com colar lavado e o bori, é chamada abiã. Há um primeiro grau de iniciação, após o qual ela se torna iaô. Depois de cumprir 1 a 7 anos de obrigações, passa à categoria de eboni. O posto mais alto na hierarquia do candomblé é ocupado pelo pai-de-santo ou babalorixá; quando mulher, é a mãe-de-santo ou ialorixá. Em seguida vêm a iiá kerere (segunda sacerdotisa), os ogans (sempre homens, os protetores do terreiro), o alabê (que toca e dirige os atabaques) e, entre outros, a sidadã, encarregada do padê de Exu.

As obrigações para cada orixá, as iniciações, o atendimento ao público, as adivinhações, leitura dos búzios, uma variedade de ritos particulares, a harmonização dos poderes que constituem a Casa de Candomblé, tudo é cuidado com detalhe, segundo uma estética ritual meticulosa. A autoridade de uma Ialorixá (mãe de santo) ou de um Babalorixá (pai de santo) está vinculada, justamente, ao seu domínio sobre todas estas matérias. O conhecimento sobre como fazer, as justificativas para cada gesto nas tradições, compõem o vasto acervo simbólico personalizado na figura da mãe ou do pai de santo.

 

O candomblé é uma Religião?

O Candomblé é uma religião dinâmica e, ao contrário do que muitos crêem por causa da variedade de deuses, é essencialmente monoteísta, crê em um único Deus e criador, Olorún (olo=dono, senhor ; orun= céu, espaço celeste sagrado), que criou o céu e a terra, os orixás e o homem.

O Orún, sua moradia e dos Araorún, todos os ancestres e elementais divinizados; o Aiyé, moradia dos Araiyé, os seres humanos, os animais, vegetais, minerais e toda forma da natureza; os orixás, elementais da natureza por excelência, guardiões e fiscais da mesma, energia indispensável para toda sobrevivência, com função dupla: reger e cuidar da natureza em si e da natureza humana; o homem, objeto maior da sua criação, para de tudo usufruir dentro dos critérios do seu Criador.

A teologia yorubana, só faz referência ao Orún e Aiyé, e em momento algum ou em qualquer circunstância faz referência a inferno e pecado. As leis, a lógica, o bom senso e os ensinamentos permeiam a conduta das pessoas, mesmo porque estes são termos posteriores à criação do homem, segundo a teologia yorubana.

No candomblé nada se inventa, tudo se aprende, o saber e o conhecimento só vem com o tempo, ensinamento, humildade, axé, merecimento e compreensão; a sua prática tende a se adaptar, pelo crescimento e modernidade do mundo, professando a sua religião através dos seus ritos, cada vez mais, confinados no seu Ilê Axé (casa de candomblé).

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